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Metodologia Mandala dos Saberes – Descrição:
Ao longo de sua existência, a Casa da Arte de Educar tem contribuído de forma inovadora para a qualificação da educação pública no país, através de suas práticas educativas e da criação de uma metodologia chamada MANDALA DOS SABERES, desenvolvida em 2007 para a Educação Integral e, atualmente adaptada e aperfeiçoada para a EJA.
O trabalho estrutura-se numa práxis que busca aliar o fazer à pesquisa e vem constituindo-se num espaço de formação para os profissionais envolvidos, bem como para a construção de políticas públicas no país. Esta tecnologia social vem sendo capaz de colaborar para a ampliação do diálogo entre escolas e comunidades, valorizando a integração entre os saberes locais e os saberes acadêmicos.
A metodologia se estrutura a partir do diálogo entre conteúdos escolares e a cultura popular. A instituição entende que o sucesso da proposta está diretamente articulado à capacidade de integração de experiências, conteúdos, projetos, intenções e métodos, ou seja, do avanço nas teses de Paulo Freire entre a educação e a cultura. O objetivo foi criar um sistema não linear e simples, capaz de representar o complexo esquema articulado entre currículos e a vida cotidiana. As Mandalas de Saberes podem assumir diferentes formas e assim permitir que a diversidade da cultura seja expressa em projetos pedagógicos. Além de ser um símbolo utilizado em diversas culturas, ao longo dos séculos.

Saberes entre escolas e comunidades.
Entre escolas e comunidades circulam, pelo menos, dois grandes grupos de saberes. De um lado, os saberes avalizados pela sociedade através da produção acadêmica, de teses, publicação de livros etc. Conhecimentos que se estruturam através do desenvolvimento de idéias, que são sucessivamente reprocessadas. Estes conhecimentos são desenvolvidos em áreas específicas, distintas entre si (embora este aspecto já seja questionado dentro do próprio pensamento acadêmico).
Em relação direta com a vida encontramos os saberes que têm origem no fazer, que têm a experiência como grande fonte. É também importante dizer que eles não estão organizados por áreas e, quase nunca, suas fontes estão em livros. Ambos os saberes possuem limitações e possibilidades semelhantes.
É importante ainda lembrar que fomos habituados a opor o saber e o fazer. A teoria e a prática – esta divisão está muito arraigada em nossa cultura e portanto, as escolas e comunidades também têm, interiorizados, esses valores.
O pensamento científico não precisa estar em oposição ao saber local, é preciso recuperar o encantamento e a confiança e para isto relacioná-lo aos desafios cotidianos. À medida que há um avanço no diálogo se formulará um pensamento síntese, capaz de fazer desaparecer a distinção hierárquica entre o conhecimento científico e o cotidiano, impulsionando os educadores para uma prática reflexiva ou para uma filosofia da prática.
Considerando-se que o saber é produzido socialmente pelo conjunto das pessoas nas relações por elas estabelecidas em suas atividades práticas, isto é, no seu trabalho, deve-se levar em conta que o indivíduo aprende, compreende e transforma as circunstâncias ao mesmo tempo em que é por elas transformado.
Todos os educadores, principalmente depois de Paulo Freire, reconhecem que para caminhar na direção de uma educação de qualidade é preciso que ambos os saberes encontrem espaços de interseção, mas nossos resultados ainda são muito tímidos. Este trabalho pretende colaborar nesta direção.

A Relação dos Saberes
O modelo desenvolvido, a partir de um ponto de vista intercultural, buscou registrar as passagens de saberes mais ou menos autocontidos para processos de interação, confrontação e negociação entre os sistemas. A circulação de saberes e bens culturais não são simples operações pedagógicas ou políticas, elas instauram outras formas de compreender a cultura e aprendizagem.
O esforço é para que o currículo escolar não seja somente um instrumento referendado pela sociedade, mas para que possua significado também pela comunidade na qual a escola situa-se. Muitos dos problemas atualmente os estudantes de escolas públicas possuem estão situados na distância entre suas experiências de vida e os conteúdos que são desenvolvidos nas escolas. Como desenvolver diálogos de saberes?
O desafio foi rever as áreas de saberes escolares, buscando relações capazes de ampliar seus limites e contornos a partir das experiências comunitárias. A “Mandala” apresenta um sistema de saberes que se justapõem se sucedem, se sobrepõem, se entrecruzam sem que se transformem em um esquema linear. Todos os agentes envolvidos neste processo (pais e responsáveis, os alunos de todas as faixas etárias, professores das escolas, coordenadores, diretores de escolas e todos os membros das comunidades) são agentes portadores de experiências distintas que precisam estar articuladas em um projeto comum, e através das Mandalas constroem espaços de diálogos visíveis.

Na Mandala de Saberes a instituição não pretende reproduzir políticas de assimilação, mas assegurar as autonomias culturais dos envolvidos. Para isso é preciso reconhecer que identidade não é um assunto ontológico, mas político: os sujeitos estão situados “no meio de” espaços de diferenças como raça, classe e gênero, e sem dúvida estes espaços possuem comunicação é preciso persegui-las. Este é o trabalho do educador interessado em promover mudanças sociais através do diálogo entre cultura e educação.

Apresentação dos Saberes Comunitários:
Com o objetivo de facilitar a compreensão de que a cultura manifesta-se em diversos campos de nossa vida cotidiana, apresenta-se várias áreas da cultura local estimulando que professores venham a pesquisá-las em seu território de atuação.

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As pessoas vivem em algum lugar e tendem a viver naturalmente juntas. Isso nos faz pensar em espaços mais ou menos delimitados de complexidade social. Mesmo a menor cidade divide seus habitantes e suas casas em grupos. Podemos chamar de comunidade os territórios ou bairros, um conjunto de bairros, algumas ruas, mas sempre são locais onde as pessoas conseguem alguma familiaridade social, geográfica e histórica, onde vivem processos sociais, econômicos e políticos relativamente comuns.
Os saberes comunitários representam o universo cultural local, isto é, tudo aquilo que nossos alunos trazem para a escola, independentemente de suas condições sociais
. Esses saberes são os veículos para a aprendizagem conceitual: o que se quer é que os alunos aprendam através das relações que possam ser construídas entre os saberes. Os alunos devem, portanto, ser estimulados a usar seus saberes e idéias a fim de formularem o saber escolar. Procuramos identificar aspectos gerais que possam ser aplicados a diversos contextos, uma vez que se trata de áreas articuladas à estrutura da realidade social e cultural brasileira. Selecionamos onze áreas distintas de saberes:

Habitação – Como se caracterizam as experiências com o espaço? O sentido de próximo/distante; grande/pequeno? Onde e como moram os habitantes deste território? Como são construídas as casas? Identificam-se técnicas específicas? Quais influências (heranças culturais) podem ser reconhecidas? Quais os materiais mais utilizados? As casas foram planejadas? Quem as construiu? Que área ocupam? Quanto aos espaços comuns como caracterizá-los? Há serviços básicos como água, esgoto, luz, correio, endereço? Que outras construções e serviços existem? Fábricas, comércios, distribuidoras? Bibliotecas? Praças?

Corpo/vestuário – Como os membros dessa comunidade/território movimenta seu corpo no cotidiano e nas festas? Que experiências corporais possuem? Há esportes ou danças que marcam a vida comunitária? Que gestos e gingas são mais usados, e em quais circunstâncias? Quais as influências de outros povos e culturas nessa experiência corporal identificada? Como se vestem? As roupas têm características comuns? O que é valorizado? Quem costura? Que materiais são mais utilizados? Por quê? As matérias-primas são locais?

Alimentação – Como se alimentam? Há falta ou abundancia de alimentos? Há desperdício (como, de quê)? Quais são as comidas prediletas das distintas gerações? Quem cozinha? E em que condições? Como combinam os alimentos? Como distribuem e compram os diversos alimentos? A comunidade produz alimentos industrializados ou agricolas? Que relações podem ser estabelecidas entre as comidas e o calendário de festas?

Brincadeiras – Quais são as brincadeiras favoritas (observar as faixas etárias e suas características)? Há diferenças entre as brincadeiras e jogos desenvolvidos na escola e na comunidade? As regras são as mesmas independentemente do contexto? O que muda? Por que muda? As brincadeiras no tempo (observar as relações com a tradição oral). Como brincaram as outras gerações? As brincadeiras e as novas tecnologias, o brinquedo ontem e hoje.

Organização política – Todos os grupos sociais buscam na organização política responder ativa e coletivamente aos desafios que se apresentam. Observe como instauram a idéia de lei, de justo/injusto, proibido/permitido. A ordem social se estrutura a partir das relações entre o poder, direitos, deveres e os cidadãos. Como, neste território, se desenvolvem estas relações? Como o grupo vivencia as regras sociais? Quais os conflitos mais freqüentes? Entre quais atores e interesses sociais?

Condições ambientais – Quais as características geográficas da comunidade? Como o meio ambiente influencia as condições de vida? Qual a história e quais os desafios do desenvolvimento da região? Houve preocupação ambiental neste processo? Quais os atuais desafios ambientais? Como são enfrentados?

Mundo do trabalho (moedas de troca) – Quais os trabalhos mais comuns nesta comunidade? É possível identificar relações entre o mundo do trabalho e a organização político cultural, com as condições ambientais e outros? Qual a qualidade de vida produzida? Através de seu trabalho a comunidade vem encontrando saídas para os desafios locais? O dinheiro é a única moeda de troca entre os moradores da comunidade? E quanto à troca de serviços, como são desenvolvidas as redes de solidariedade? Explorar as relações entre os valores e as práticas comerciais, as trocas de serviços etc.

Curas e rezas – Como cuidam da saúde? Quais os hábitos? Como solucionam os males físicos que enfrentam? Quais as relações da saúde com as condições ambientais? Além da medicina tradicional, quais as tradições e remédios utilizados? Quais as receitas? Como são preparados esses remédios? Por quem? Utilizam rezas para a cura? Há relações entre as rezas e as plantas ou remédios populares?

Expressões artísticas – Elas integram o universo da produção do simbólico, que se expressa em pelo menos quatro linguagens distintas, embora nem sempre independentes. Muitas festas populares e manifestações mais contemporâneas reúnem mais de uma área de expressão numa mesma criação.

Podemos, para fim deste trabalho, considerar também as expressões:

Expressões Verbais: Há particularidade na forma de se comunicar? Quais as expressões mais utilizadas? Quais as gírias? Que relações podem ser estabelecidas entre as expressões verbais e as lendas e as narrativas locais?

Expressões Visuais: (refere-se ao mundo da imagem) Quais as expressões visuais produzidas? Cartazes? Vestuários? Decorações de festas? Murais? Decorações?

Expressões Corporais: Quais as festas e danças? Há dramatização teatral?

Expressões Musicais: Há tradição musical específica? A indústria cultural ou cultura de massa, como são estabelecidas as relações?

Narrativas Locais – A vida comunitária é marcada por diversas histórias, algumas ocorridas (fatos comprovados) e outras das quais não se tem certeza, mas às quais todos se referem (as lendas); todas possuem o mesmo valor pois estruturam o imaginário local. É interessante pesquisar esse repertório de histórias e as relações com as outras áreas de experiências comunitárias, como as rezas e curas, as receitas, expressões artísticas, etc.

Calendário Local – É interessante reconhecer e valorizar as datas representativas para a experiência comunitária e compará-las com o calendário socialmente instituído. O calendário comunitário é geralmente composto de crenças, homenagens, personagens, e expressa as histórias daquele grupo.

Apresentação dos Saberes Escolares:
Com o objetivo de apresentar o currículo escolar de forma sistêmica e mais facilmente relacioná-los a cultura local buscou-se uma visão integrada da cultura escolar:

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Ao ingressar na escola, os alunos trazem os sentidos particulares que atribuem a si próprios, como pessoas, passando, então, a viver a experiência de compreender o significado social que esta instituição e os que a compõem lhes atribuem. Eles possuem diferentes experiências no mundo que se constituem num desafio ao professor, no sentido de relacioná-las aos conteúdos processados nas escolas.
Afinal como se forma um estudante? Que habilidades são necessárias? Como despertar a curiosidade, a reflexão e a capacidade de síntese? Neste trabalho os saberes escolares são entendidos como aprendizagens imprescindíveis à formação acadêmica geral. Nesta medida, é possível indagar como se constrói o conhecimento, como acontece a aprendizagem?
Com enunciados mais ou menos gerais, busca-se vincular conceito, aplicação e mobilização do conhecimento. A ênfase, no entanto, está no desenvolvimento do espírito de pesquisa na formação de estudantes
. A Casa da Arte acredita que este espírito, quando bem alcançado, estrutura a conquista de qualquer vida acadêmica e comunitária. Quando a expressão saberes escolares é utilizada, é preciso esclarecer que ela está se referindo às propriedades e estratégias do fazer e do pensar, aos procedimentos passíveis de produzir uma práxis diferenciada para estudantes em formação. Aqui os saberes escolares se constituem além dos conteúdos específicos de cada disciplina escolar; são também as habilidades, procedimentos e práticas que tornam os educadores sujeitos de nosso processo educacional.


Com estas preocupações os saberes escolares relacionados foram:
A curiosidade: querer saber, querer conhecer;
O questionamento: não aceitar, buscar confirmar;
A observação: estudar algo com atenção;
O desenvolvimento de hipóteses: estimar;
A descoberta: revelar, dar a conhecer algo;
A experimentação: tentar, praticar, verificar;
O desafio: o jogo como pesquisa;
A identificação: reconhecer o caráter de algo;
A classificação: distribuir em classes, determinar categorias;
A sistematização: criar ou identificar relações entre partes e objetos;
A comparação: estabelecer confronto entre partes e objetos;
As relações: estabelecer identidades e diferenças entre partes e objetos;
As conclusões: realizar sínteses;
O debate: confrontar pontos de vista;
A revisão: ver de novo, com a capacidade de alterar o ponto de vista original;
O criar: dar forma, produzir, imaginar, suscitar;
O Jogar: colocar-se em risco, aceitar combinações não programáveis, experimentar;
A curiosidade: voltar a se perguntar.

Mandala de relações entre os saberes comunitários e escolares:
Através da Mandala é possível visualizar espaços de interseção entre a cultura local e o currículo escolar pois várias relações podem ser desenvolvidas entre ambas. Desta forma, a diversidade cultural funcionará como ferramenta de auxílio à construção de estratégias pedagógicas para educação integral, promovendo condições de troca entre saberes diferenciados. É importante tornar a Educação um laboratório de experiências culturais, sociais e históricas em que a realidade e o conhecimento adquiram sucessivamente novas formas
A Mandala de relações de saberes foi criada para demonstrar que os saberes comunitários e os escolares possuem estruturas comuns de investigação embora com metodologias e formulações diferenciadas.
Os conhecimentos são socialmente construídos – isto é, são resultados de práticas que mobilizam recursos intelectuais de diferentes tipos, vinculados a contextos e situações específicas. O trabalho do professor é buscar relacioná-los.

As relações entre os saberes apresentados nesta Mandala, quer mostrar que não existe entre escolas e comunidades uma relação assimétrica: doador (escola) x recipiente (comunidade); conhecimento (escola) x ignorância (comunidade); ensinar / aprender; pensar / agir; recomendar / seguir; desenhar / implementar.

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Projeto pedagógico a nível Nacional: a Mandala dos Saberes para as Escolas e Pontos de Cultura
A Mandala dos Saberes é uma tecnologia social capaz de ser aplicada em qualquer espaço educacional: Ongs, Pontos de Cultura e escolas. A proposta estrutura-se no diálogo entre os marcos culturais do território escolar e os desafios acadêmicos. Desenvolvida através de seminários de formação continuada para professores e de fóruns virtuais de debates pedagógicos, de forma a que cada escola possa construir projetos pedagógicos capazes de expressarem a cultura local, esta ação vem sendo construída através de parcerias com os Ministérios da Educação e o Ministério da Cultura através dos Programas Cultura Viva (Pontos de Cultura) e Mais Educação (Educação Integral) SECAD / ME. Todas as ações descritas são realizadas nas 5 regiões do país através de equipes regionalizadas da Casa da Arte.
Mandala para Escolas:
Através dos projetos construídos nas Mandalas, cada escola pode elaborar e visualizar seu projeto educacional e desenvolver suas relações. Os projetos nascem da interseção dos saberes escolares com os comunitário. As Mandalas/Projeto de Educação Integral expressam tanto as particularidades como suas imprevisíveis relações.
As Mandalas são pequenos círculos capazes de amplificar as muitas relações entre saberes; possuem tanto uma dimensão interior (dentro da escola e comunidade), como agem para o exterior (na rede de escolas e na cidade), como pequenos círculos em expansão, em busca de suas dimensões em rede. Cada uma significa pequenos sistemas, pois são individualidades de saberes atuando em grupo, em relação. Suas partes estão coordenadas entre si estruturando uma organização, o projeto de educação integral de cada escola/comunidade.
Através da criação de diversas Mandalas, cada uma caracterizando um projeto de educação integral, o que se pretende é a construção de uma constelação de Mandalas, uma vez que elas respondem a diferentes contextos e devem representar nossa diversidade.

1º PASSO - No centro sugerimos colocar o nome da escola;
2º PASSO - No segundo círculo indique o objetivo: a construção de projeto de educação integral.
3º PASSO - No terceiro círculo, indiquem os saberes comunitários. São eles que os apoiarão no desenrolar do projeto. Neste momento é necessário decidir se serão trabalhados todos os saberes apresentados na mandala de saberes comunitários, ou selecionados alguns (para esta decisão procurem pensar nas características das experiências comunitárias). Ao colocá-los em círculo, não os coloquem aleatoriamente um ao lado do outro, procurem pensar que relações vocês pretendem construir com os programas de governo, ou seja, com o próximo círculo. Lembre-se de que o desenho das Mandalas é um desenho de relações, as posições não são aleatórias, todas devem fazer sentido.
4º PASSO - Se facilitar, vocês poderão criar uma outra linha na qual façam referência aos saberes comunitários identificados. Por exemplo, se selecionarem habitação, indicar qual as características da habitação nesta comunidade. Esta sugestão pode facilitar a identificação do perfil cultural da localidade.
5º PASSO - A seguir identifiquem os Programas de Governo que irão apóia-los no desenvolvimento do Projeto de Educação Integral. Para auxiliar procurem as referências nos programas e os relacionem aos desafios e aos saberes comunitários
6º PASSO - Os saberes escolares devem ser identificados em diálogo com os círculos e saberes já apontados nos círculos anteriores.
7º PASSO - Na última linha, se quiserem, vocês podem indicar algumas relações com as áreas do conhecimento escolar: linguagens, códigos e suas tecnologias, ciências da natureza e matemáticas e sociedade e cidadania. Dessa forma, fica mais fácil identificar as equipes da escola que deverão estar envolvidas no projeto.


Alguns Princípios que norteiam a metodologia Mandala dos Saberes
Primeiro Princípio: Educação como Praxis
Compreendemos que a educação como uma ciência, que diferentemente das outras, tem como objetivo interferir no real trata-se de uma ciência que busca efetivar um campo de conhecimento estruturado no diálogo entre o fazer e o refletir.
As pesquisas que desenvolvemos nascem de processos participativos elaborados através de diversas práticas que nos permitem colocar em diálogos as vozes e experiências dos envolvidos. Perseguimos uma prática solidária na qual todos são simultaneamente autores e agentes da cultura e da educação. Neste sentido o empoderamento que nos referimos não se realiza somente na instância do indivíduo, mas também se reflete na equipe que atua em conjunto.
Desta forma, buscamos uma educação que se desenvolve numa dimensão pública, através de relações sempre intencionais entre professores e os educadores populares, assim conquistamos um espaço onde nossas práticas e nossas pesquisas se aproximam. Formulamos a construção de conhecimento através do diálogo entre estas diferentes vozes, trata-se de uma prática que só é possível através do empoderamento de todos os envolvidos. Desta forma entendemos que o monitoramento das ações e as pesquisas a eles associados, são simultaneamente ações de formação para todos os participantes.

Através de destes processos de pesquisa adentramos à práxis, pois formulamos uma ação comprometida socialmente e simultaneamente fundamentada teoricamente, a qual, esperamos, possa colaborar para a conquista da qualidade da educação através de sua indissociável relação com a cultura.

Através da sistematização dos processos de pesquisa dos envolvidos garante-se a construção uma dimensão científica para além do espontaneismo, assumindo assim um ponto de vista marcadamente crítico-reflexivo. Nosso trabalho persegue uma pedagogia de participação, buscando “aproximar o sujeito de sua consciência de seu saber de seu fazer, sua intencionalidade de sua prática...”1

Segundo Princípio: Ampliação do diálogo entre escolas e comunidades
Muitas experiências de educação integral constroem sua atuação a partir da prática escolar. A Casa da Arte de Educar, diferentemente, construiu sua ação pedagógica a partir de um eixo central que articula educação e cultura. Para isto, estruturamos uma Mandala de Saberes capaz de manter vivo este diálogo entre escolas e comunidades.
O modelo que desenvolvemos, busca fazer com que o currículo escolar, além de um instrumento referendado pela sociedade, tenha significado também para a comunidade na qual a escola situa-se. Esta proposta pedagógica se estrutura a partir do incentivo ao diálogo e à troca entre grupos culturais distintos através da valorização das experiências de cada grupo. Todos os agentes envolvidos neste processo (pais, os alunos, professores da ONG e das escolas, representantes das escolas e membros das comunidades), são agentes portadores de experiências distintas que precisam ser articuladas em um projeto comum. Através de uma Pedagogia das Trocas, se oportuniza uma mútua contaminação, transformando o educador num pesquisador das experiências da cultura no mundo em que vai atuar. Este educador aprende a trabalhar como se respira: de fora para dentro e de dentro para fora, colaborando para a qualidade das práticas pedagógicas. Nossa proposta busca permitir que a cultura local possa expressar-se nos projetos pedagógicos

Terceiro Princípio: Educação e Cultura
A partir da contribuição de Paulo Freire, um dos maiores pensadores brasileiros, é possível dizer que a educação deve ser uma prática participativa inseparável do âmbito da cultura. Na época em que exerceu o cargo de Secretário Municipal de Educação de São Paulo, ele afirmou: “Não basta à Escola Pública matricular meninos e meninas em suas atividades e programações. Precisamos ir além disso. É preciso garantir vaga e matricular a cultura desses meninos e meninas...”
Essa questão precisa estar inserida no cotidiano de educadores. Portanto, perceber a educação como cultura, é fundamental para a formulação de metodologias educacionais de qualidade, capazes de assimilar os vários aspectos culturais como fatores relevantes e que podem ser utilizados em benefício de melhores resultados educativos.


Quarto Princípio: Professor como Pesquisador da cultura local

A articulação entre Cultura e Educação se liga ao pensamento em torno da didática (MOREIRA, Antonio Flavio Barbosa / Currículo, cultura e formação de professores) para quem o currículo, em síntese, pode ser considerado como “um espaço público em que, em meio a práticas, relações sociais e embates, se produzem significados e identidades. Nesse espaço novos tempos podem ser anunciados”.
Estudar os caminhos que levam a construção de uma didática interdisciplinar requer uma visão de currículo como pratica social, como espaço de debate de diferentes, como território contestado, historicamente construído, que articula-se diretamente com a pesquisa didática do professor, seja em sua prática docente, como em sua formação.
Mostra-se, então, indispensável refletir sobre os procedimentos capazes de garantir que os currículos e práticas pedagógicas possam representar espaços de pesquisa didática apoiada nas diferenças. Que princípios precisam ser garantidos para que os projetos pedagógicos realizados por escolas do país possam estar associados à expressão da rica diversidade cultural? Ou seja, para estruturação de uma didática intercultural é necessário que os professores sejam capazes de ler/compreender a cultura em seus aspectos visíveis (materiais) e invisíveis (imateriais):
É preciso realizar uma leitura positiva a respeito dos conhecimentos adquiridos pelos alunos. Ou seja, ler de outra maneira o que é lido como falta. Diante do fracasso de um aluno, a leitura positiva pergunta-se pelo que está acontecendo e não acentua as faltas, lacunas etc. Trata-se de uma postura interessada em reconhecer o que leva a diferenças (por que o aluno fracassa), buscando a partir daí o aprendizado que o desafia. O que a didática intercultural propõe é que se possa estudar o problema do fracasso escolar a partir da história dos sujeitos, compreendendo o indivíduo como um sujeito que interpreta, interfere e questiona o mundo, instaurando muitas vezes outros mundos. Ou seja, como sujeito produtor e fruidor de cultura. O sujeito do saber não pode ser compreendido sem que se pense na sua relação com o mundo.
Para os professores o desafio é compreender estas relações do ponto de vista do “aprender”, no que diz respeito à ciência da educação, transformando a diversidade cultural em uma vantagem pedagógica, de forma a torná-la cúmplice de pesquisas e capazes de reinventar estes profissionais sucessivamente.

Site da Casa da Arte de Educar nasceu da reunião de educadores das favelas com profissionais das áreas de educação que juntos buscavam colaborar para a qualificação da educação pública. Esta meta tem direcionado as ações da ONG que desenvolve um trabalho de Educação Integral e Educação de Jovens e Adultos (EJA).

A Casa da Arte de Educar vem buscando realizar práticas educativas associadas a pesquisas para formulação de metodologias para a educação. Criou em 2007 uma tecnologia social (Mandala dos Saberes) voltada para a Educação Integral e capaz de colaborar para o diálogo entre escolas e comunidades, valorizando a integração entre os saberes locais e os saberes acadêmicos.

A metodologia Mandala dos Saberes foi selecionada pelo MEC para servir à Educação Integral do Programa Mais Educação e está sendo disseminada para 10.042 escolas em todo o Brasil.